segunda-feira, 29 de agosto de 2011

LIÇÕES DA VIDA


No último sábado tive a grata satisfação de conhecer um cidadão muito especial, o Sr. Raimundo, morador de um assentamento nas proximidades do Distrito de Juatama, no município de Quixadá/CE. Eu acompanhava um grupo de estudantes que faziam pesquisas sobre um programa de plantação de mamona para a produção de biodiesel.

Como eu estava só de motorista, enquanto os estudantes entrevistavam os assentados, fiquei de bate papo com aqueles que esperavam a sua vez. Aquelas pessoas simples tem muita história para contar de suas vidas sofridas no meio do “sertão brabo” com pouca estrutura e quase nenhum conforto. Aliás, conforto mesmo acho que só em suas mentes sempre esperançosas de dias melhores. A maior parte do tempo escutei atento as conversas, falavam de política, de educação, do dia-a-dia sofrido naquela região carente de um monte de coisas que você só encontra mesmo é na cidade. Quem pensa que o sertanejo é desinformado está é por fora, eles sabiam mais coisas sobre a política da nossa cidade do que muita gente que eu conheço que mais parecem uns alienados.

Mas a conversa que mais me chamou atenção mesmo foi a que tive com o Sr. Raimundo, um sujeito simples de 65 anos, no segundo casamento e pai de 20 filhos (Ôh véi maxo). “Olhe uma vez eu andei quase uma noite inteira de pé, sozinho e Deus, de onde eu morava, lá perto do Choró Limão até o Quixadá, atrás de serviço, pra não deixar meus filhos passar fome”, dizia ele com o peito cheio de orgulho por ter conseguido criar tantos filhos. Detalhe, a primeira esposa, com a qual teve os 11 primeiros filhos (quatro já morreram), ainda mora próximo a sua casa, onde vive com a segunda esposa, no mesmo assentamento.

“Eu sempre fui um homem da roça, criei meus filhos à custa de muito trabalho. Já tive que pedir esmola, mas nunca nenhum deles passou fome”, destacou. “Quando eu era mais novo era igual a um poldo, mas mesmo velho como hoje, não sinto uma dor no meu espinhaço nem nas pernas, e num abro pra serviço não”, dizia ele se orgulhando da sua condição física. “Olhe a vida aqui num é fácil não, mas se a gente tivesse mais incentivo a gente produzia mais”, reclamava ele dos políticos que dão pouca atenção aos assentamentos. Dormir até tarde? Que história é essa! O Sr. Raimundo só vai dormir lá pelas 11 da noite e as 4 da matina já está de pé para a labuta diária. “Rapaz, a pessoa dormir duas horas por dia já tá bom demais, quem dorme muito, produz pouco”. Mas vamos combinar Sr. Raimundo, duas horas é exagero num é não? E por falar em política, todos eles falavam por uma boca só quando o assunto era a atuação do prefeito da nossa cidade: “E Quixadá tem prefeito? A gente num ver esse homem não.” Pois é Sr. Raimundo, essa pergunta todo mundo se faz por aqui também!

O fato é que foi muito bom esse dia lá no sertão, tive a oportunidade de relembrar meu tempo de criança quando também passei por momentos difíceis como aqueles relatados pelos sertanejos daquele assentamento. Buscar água no açude em um tambor em cima de uma carroça ou ir buscar o gado no pasto para trazer para o curral todo final de tarde, moer capim, talo de mandioca, queimar mandacaru pra dar o gado para comer na época da seca... É a vida não é fácil lá pras bandas do sertão, mas quem vive naquela peleja tem sempre a esperança de dias melhores. Geralmente são pessoas fortes acostumadas a superar obstáculos, como o Sr. Raimundo, e que tem na fé em Deus a certeza de que um dia será recompensado pelo seu esforço.

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